9 de fev de 2012

Chegada

Porto Alegre – São Paulo – Roma – TelAviv - Jerusalém.

Nesse trajeto, o meu pensamento mais recorrente era como agiria ao chegar no posto de imigração de Tel Aviv. Afinal, todo posto de imigração tem um certo grau de emoção, e esse de Israel em especial por todas as questões de segurança. E se não me deixassem entrar? E se me dissessem que não queriam gente do Conselho Mundial de Igrejas por lá? E se eles simplesmente não gostassem da minha cara?!

Pensando nisso, passei um bom tempo me preparando. Treinei algumas vezes o que iria dizer. Cortei barba e cabelo pra parecer mais decente. Fui com uma roupa arrumadinha e fiz questão de usar óculos, com a esperança de que tivessem certeza absoluta de que eu era um respeitável jovem adulto. Nos voos, então, fui repetindo mentalmente a situação que iria encarar, simulando possíveis diálogos e respostas diplomáticas. Pra dar um colorido à coisa, duas espinhas resolveram aparecer no meu queixo, o que me deu um ar ainda mais “adolescente de férias”.

A minha ansiedade chegou ao ápice durante o voo Roma - Tel Aviv; ali, me avisaram, era extremamente aconselhável que eu falasse o menos possível com as pessoas ao meu redor, para não atrair a atenção de algum agente do Mossad ou qualquer loucura do tipo. Afinal, era O brasileiro do voo e provavelmente o único que fazia questão de falar em inglês com as aeromoças. Pra piorar, havia duas garotas mais ou menos da minha idade sentadas nas outras duas poltronas da minha fileira, que, embora israelitas, falavam uns negócios engraçados em português. Pronto: só podiam ser as tais agentes do serviço secreto de Israel que queriam investigar porque diabos tinha um brasileiro viajando sozinho pra um lugar, digamos, “exótico”.

Entendi que elas queriam puxar assunto, mas me concentrei em escutar “Ai, se eu te pego” umas quinze vezes, fingindo estar completamente alheio ao mundo. Mas, no final, não teve jeito: uma delas me ofereceu um chiclete e acabei aceitando. Aí vieram os assuntos que mais temia que abordassem comigo: da onde era, o que ia fazer em Tel Aviv, onde ia ficar e se pretendia viajar. Respondi às perguntas de forma resumidinha, fiz piadinhas, falei das festas de Tel Aviv e da minha vontade de visitar Haifa; elas me contaram que tinham ido trabalhar no Brasil pra anunciar produtos israelenses, que tinham gostado de funk e… ficamos amiguinhos!

Então, no trajeto entre o avião e o aeroporto saí conversando com elas. Isso, de alguma forma, me ajudou a evitar contato com os guardinhas que ficam esperando pra abordar pessoas aleatoriamente.

Feito isso, elas foram para os guichês destinados a cidadãos israelenses e eu fui para o de estrangeiros. Escolhi a fila que tinha uma atendente de cabelo curto loiro, que me pareceu mais simpática, e… pronto. Foram os 30 segundos mais tensos da minha vida. Revivi meu treinamento, as coisas que iria dizer caso me perguntassem isso ou aquilo; parecia que as palavras não sairiam da minha boca, que desmaiaria, que seria deportado, que colocariam um abacaxi gigante na minha cabeça e me fazer dançar a hula-hula… o fim, o fiiiiiiiim!

A atendente me chamou com um “please”. Dirigi-me ao guichê, dando uns 4 passos, no máximo. Soltei um “hi, how are you” e deixei meu passaporte. Minhas mãos suavam. Ela então olhou para o passaporte, conversou com alguém num microfone, carimbou o documento, pôs um carnê de saída dentro dele e me devolveu tudo sem dizer uma palavra. Assim, sem perguntas, sem nada, a minha ansiedade esvaziou e me senti um bocó.
“That’s all?!”, perguntei, completamente incrédulo.
“Yes”, ela respondeu. Soltei um “thank you” ainda mais incrédulo.

Juntei tudo e fui embora com minha bagagem, feliz da vida e satisfeito com a descoberta de que não pareço um terrorista :))
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P.s: apesar dessa história de “sucesso”, é preciso dizer que alguns colegas meus – suecos e finlandeses, principalmente – foram levados “pro cantinho” e questionados a respeito das intenções deles no país, um deles por umas três horas, inclusive. Eles sim puderam colocar em prática o treinamento!

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