12 de out de 2016

Circuitos Urbanos Pessoais

Quando eu era pequeno eu tinha o hábito curioso de pegar os mapas que existiam nos guias telefônicos e inventar pistas de corrida. Eu não fazia a menor ideia do que cada via de fato representava para a cidade, mas era extremamente divertido transformar a Avenida Ipiranga numa reta de Interlagos, ou a 24 de outubro num GP da Alemanha. 

Eu gostava de Fórmula 1. Os cadernos de esportes que indicavam cada pista da temporada era guardados com carinho. Adorava os carros aparecendo na TV, indicando o grid de largada. Eu visitava um vizinho que tinha o jogo do Nigel Mansell, e ia lá só por causa do jogo, e não exatamente pela companhia do "amigo" (:X). Arranjava desculpas pra dormir na sala, só pra poder acordar de madrugada pra assistir ao Grande Prêmio do Japão. E mais: fazia o meu pai gravar a corrida, pra eu poder ver de novo depois.   

Desses meus interesses automobilísticos é que pode ter surgido essa minha sanha por inventar circuitos. Porto Alegre bem valia um GP. Cidade de curvas, lombas, acidentes geográficos, e amplas avenidas. Quem sabe, algo meio Montecarlo, mas também com trechos bem velozes. Talvez viéssemos a colocar algumas arquibancadas no meio da João Pessoa e muita propaganda da Marlboro na Cavalhada.

No entanto, depois que o Senna morreu, em 1994, tudo mudou. A competição, pra mim, foi perdendo o charme, até se apagar totalmente. Os carros deixaram de soltar faísca. Foram sumindo Piquet, Irvine, Hill e o glorioso Katayama (também chamado Katagrama). Não tinha mais graça.

Curiosamente, deve ter sido também por aí que começou o gradual desaparecimento dos guias telefônicos. Não havia mais crianças e/ou pré-adolescentes dispostos a convencer seus pais a comprá-los. Com isso, também começaram a morrer os mirabolantes planos arquitetônicos, as chicanes imaginárias, as pistas de escape na curva dos bombeiros da Cristóvão Colombo. Fui rejeitando o meu passado de inventor de circuitos porto-alegrenses.

Com isso, os GPs imaginários foram, aos poucos, sendo substituídos por percursos reais: casa-colégio, corridas na Redenção, ônibus Campus do Vale-Casa, carro Casa-Trabalho, trajetória profissional. Cada ano é uma nova temporada, com desafios novos, e outros que se repetem. Substituí a fantasia pela realidade. Deixei de ser só projetista, comecei a pilotar em circuitos próprios.  

15 de fev de 2016

Turista local

Tenho problemas com lugares "novos". Restaurantes, bares, museus, feiras, enfim, espaços que representem alguma novidade me deixam ansioso. Sinto-me perdido, sem bolsos suficientes, sem direções para olhar. 

O mais estranho é que isso costuma acontecer em Porto Alegre, o lugar em que vivo há vinte e sete anos. E o que é pior, isso acontece até na fila de buffet.Tenho medo de revirar a salada e de pensarem que estou em busca da rúcula de ouro. Fico receoso de que comece a tremer sob olhares desconfiados e deixe o pegador cair com a massa bolonhesa. Tenho vergonha de ficar na fila do bar, sozinho, esperando a minha vez e, do nada, ser pulado na frente por um hipster desalmado.

No Rio, a minha outra terra natal, isso acontece muito menos. Lá, consigo ir sozinho em um boteco e pedir misto-quente com guaraná. Em Belo Horizonte, usei chapéu caipira enquanto tomava cerveja e comia fígado com quiabo. Em Londres, joguei um quiz etílico com franceses desconhecidos e ganhei meio litro de cerveja quente.


Quando, na vida, eu ia fotografar um brigadiano/soldado em Porto Alegre?

Imagino que, enquanto local, deveria me sentir bem comigo mesmo em espaços e com pessoas que reconheço como porto-alegrenses. Experimentamos paisagens e sensações semelhantes, todos os dias. Podemos ter conversas em comum, falar do Grêmio, do Inter e das obras intermináveis, e não se sentir menos, mais ou diferente um do outro.

Ainda assim, apesar de todas essas semelhanças, não raras vezes me vejo fora de lugar em Porto Alegre. Ao mesmo tempo, fora daqui, me encontro, mas também não me sinto em casa.

A impressão que eu tenho é que a curiosidade e o ser, de fato, estranho em um lugar estranho, é o que anima a fazer descobertas. Além disso, atiça a sociabilidade, a exposição a experiências incomuns. Não ser belo-horizontino me permitiu usar chapéu de palha. Não ser inglês me animou a fazer amigos franceses e andar quilômetros para comer purê de ervilhas. Não ser muito carioca sempre me dá o direito de me fazer totalmente carioca quando no Rio, mesmo quando chamo sinal de sinaleira. 

No entanto, penso também que é muito fácil fazer "macaquices" fora do nosso lugar. Usar chapéu de palha em Belo Horizonte não necessariamente me torna mais mineiro, assim como purê de ervilhas não precisa ser considerado bom. Chamar de sinal o que também é uma sinaleira não vai mudar a vida de ninguém. 


Sendo um turista local.

Ser reconhecido, no cotidiano, como alguém estranho, pode ser bem penoso. Disso decorre a preocupação com o gestual, com a forma com que nos expressamos, com os lugares aonde vamos. O problema é quando isso leva a uma espécie de acomodação e ao medo de ser turista na própria cidade. Por isso a ansiedade com lugares novos, dentro da própria cidade. Desvendar os mistérios do lugar em que se vive pode ser até mais desafiador, mas não há razão para não se abrir a novos horizontes, mesmo quando as ruas já são bem conhecidas.

8 de fev de 2016

Lá e perto daqui


Descobri uma foto que eu havia tirado em 2009. Foi por acaso, rememorando viagens. Em primeiro plano o que se vê são os restos de uma cerca feita de folhas de palmeira, e, ao fundo, em perspectiva, uma imensidão de areia. E lá, bem, bem distante, entre a cor ocre da areia e o céu palmilhado por nuvens, dois pontinhos caminhando rumo ao nada. 

A resolução da imagem não é das melhores, mas, acreditem, os pontinhos estão lá. Um pouco à direita da cerca de madeira, ao fundo. É possível vê-los aqui também.

Pessoas quase invisíveis, longe de tudo, no meio do nada.

Salto para 2013. Outra foto minha. Dessa vez, o que se destaca é o nublado e a menina andando no canto. Inclinada, com todo aquele vento, ela segue adiante, apesar da resistência que o ar lhe opõe. Gosto de pensar, também, que a foto apresenta uma “perspectiva sem perspectiva”: isto é, que o fato de não se saber o que vem depois da duna em que a menina se encontra também representa a distância, assim como aquelas duas pessoas caminhando lonjuras. 

Pessoa mais perto, mas também no meio do nada, longe de tudo.

É fácil dizer o que me chamou a atenção naqueles momentos. A imensidão, as distâncias, o nada, tudo tão, tão longe, ou tão, tão, perto, a diversão com a natureza e seus obstáculos. Muito romântico, muito bucólico, muito digno de contemplação. Muito digno de se sentar e pensar “na natureza selvagem” e nos gnomos.

Achei curioso constatar que a primeira das fotos havia sido tirada nos Lençóis Maranhenses, e a segunda aqui perto de Porto Alegre, na região da Lagoa do Bacopari. Esses lugares estão distantes milhares de quilômetros um do outro, e também tem anos-luz de diferença em termos de turismo organizado. No entanto, com um pouco de má-fé, um lugar poderia ser tomado pelo outro. Seria como tirar uma foto em Sydney e dizer que era Búzios, ou fazer uma selfie em Charqueadas e falar que foi em São Paulo.

Quer dizer, no fim das contas, o lugar não importa tanto assim. Apesar da geografia, acho que inconscientemente acabei alcançando uma espécie de “tema”, aproximando visões que de maneira alguma poderiam ser intercambiadas. Para esse “tema”, distância e tempo são aparentemente irrelevantes. O que importa são as sensações que aqueles lugares puderam despertar. A imagem dos Lençóis talvez pudesse ser ilustrada com uma legenda dizendo que aquilo era Bacopari que não ia fazer a menor diferença.

Afinal, na fotografia o que vale é a transmissão. Sim, o que está na imagem é a realidade, mas uma realidade interpretada e/ou representada daquilo que temos à frente de nós. Os ângulos, os movimentos, a perspectiva, está tudo lá para causar uma determinada impressão e revelar um pouco da minha visão de mundo, e também do mundo dos outros. E isso pode ser levado para qualquer lugar. No Maranhão ou no Rio Grande do Sul, o que aparece é um pouco de mim e também das estratégias que me ensinaram em termos de fotografia.  Aqui ou lá, e ainda que separadas por cinco anos e câmeras bem diferentes, posso transmitir as mesmas “preocupações”. Sinal, talvez, de que o GPS não se confunde com a mensagem.

2 de fev de 2016

Amor em Tempos de Árvores Caídas

Escrevo inspirado pelo texto do Professor Francisco Marshall, disponível no Jornal Zero Hora de domingo, sobre a nossa "cidade transtornada". E, também, pela minha vivência ao longo desses dias de tormenta. Espero que a narrativa e as observações a seguir ajudem a desanuviar o clima pesado que se (me) abateu sobre todos (sobre mim). 

Trabalho próximo a uma dessas praças que todos conhecem, mas poucos sabem o nome. “Isabel, a Católica”, provavelmente não é a área verde mais conhecida de Porto Alegre, mas ainda pode presentear alguns nesta última segunda-feira, véspera de Nossa Senhora de Iemanjá, com uma cena pouco provável.

A cidade recém começava a se recuperar dos estragos do final de semana. Luz, internet, telefone, enfim, tudo, absolutamente tudo, indisponível. Além disso, era palpável o nervosismo de todos quanto à urgência de voltar à normalidade. Hospitais e vias bloqueadas, por sua vez, disputavam, com os refugiados do Instagram e do Facebook, a preferência de atendimento por parte dos órgãos da administração municipal, que se reviravam para atender a milhares de ocorrências.

Além disso, havia as árvores. Por toda a parte. Caídas, destroçadas. Parcão, Redenção, Marinha do Brasil, e também “Isabel, a Católica”, tiveram dezenas das suas arrancadas pelas raízes. Na segunda, ainda estavam elas lá espalhadas pelo chão, como soldados tombados em batalha, dividindo o espaço disponível com banquinhos, tabuleiros de xadrez e escorregadores.

Foi nesse cenário entristecido, junto a um parquinho e a uma dessas árvores gigantes tombadas, que descansava um casal relativamente jovem. Era quase uma da tarde, e eles pareciam não se importar com as paineiras, ipês e demais espécies vegetais que haviam perdido troncos, membros e folhas. Na “Isabel, a Católica”, riam, abraçavam-se, beijavam-se. Vez ou outra o rapaz olhava em volta, sem esconder o sorriso, só para se certificar se alguém os observava com olhar reprovador.

Casal feliz. Isabel, a Católica, também feliz.

Definitivamente, não era o meu caso. Inclusive, parei para tirar uma foto, discretamente. Aquela imagem, inclusive, deu-me esperança de dias melhores. Esperança de que as árvores caídas serão recolhidas, de que as que estão de pé seguirão de pé, de que ainda haverá amor, apesar de tudo. Em uma cidade tão abatida, com visível degradação do espaço público, essas demonstrações de afeto revelam resistência e confiança no futuro, e de que talvez por aí encontraremos o "caminho da felicidade" de que nos falava Francisco Marshall em sua coluna.

Mesmo em tempos catastróficos, podemos confiar em parquinhos e em casais apaixonados como símbolos de resistência. Podemos confiar, enfim, que tudo voltará à normalidade, e de que é viável a construção de espaços públicos que favoreçam a urbanidade e um urbanismo mais humano. Nada mais energizante do que uma criança brincando no passeio do macaco, ou do que ver pessoas satisfeitas andando pelas praças e parques. A vida segue, com ou sem árvores caídas.


Retomadas e Reinvenções

Decidi retomar o blog. Ele representou um momento importante pra mim em 2012-2013, ainda sob os efeitos de um período de três meses vivendo nos Territórios Ocupados Palestinos. Lá pude observar o dia a dia de um conflito de décadas, que tem efeitos persistentes sobre a vida de todos, e trazer um pouco da minha visão sobre tudo que ocorria ao meu redor

O blog foi nomeado "Entre Santos e Checkpoints". Procurava, com esse título, ressaltar o caráter contraditório de um espaço ao mesmo tempo cheio de horizontes e cheio de checkpoints (e outros controles de fronteira e de pessoas). Enfim, trazer algo sobre o olhar de quem se sentia vivendo entre a liberdade e prisão, entre o sagrado e o profano. Com o "charme', claro, de uma experiência fora do país, em um local pouco provável para se passar três meses.

Nesta nova fase pretendo manter o mesmo nome para o blog. No entanto, vou transportar as reflexões que fiz em 2012-2013 para uma análise mais próxima do nosso cotidiano. Persistentemente entre limitações (checkpoints, fronteiras) e sonhos (santos, peregrinos), pretendo trazer essa ambiguidade que via na Palestina/Israel para o nosso dia a dia. Enfim, seguir trabalhando com limitações e horizontes, mas com um enfoque mais amplo. 

Vou  retomar a transposição de fronteiras, mas com a consciência de que a vida se reinventa no extraordinário e no cotidiano.  

6 de mai de 2013

Treinamento

Há um ano eu suava frio, desfazia a minha mochila e dava explicações pra um funcionário do serviço de segurança do Aeroporto Ben-Gurion, em Israel, antes de finalmente embarcar em um avião de volta ao Brasil. Em contrapartida, nesse último domingo, um ano depois dessa cena que acabei de descrever, embarcava num voo de São Paulo a Porto Alegre, depois de haver participado do Seminário de Capacitação dos novos voluntários do EAPPI.
 
E, dessa vez, sem indagações, sem mochilas reviradas, sem perguntas sobre amigos árabes. Passar pela segurança do Aeroporto de Congonhas, depois de participar de um encontro que, muito provavelmente, aos olhos da segurança de Israel, representaria uma ameaça completa, foi uma vitória, e, de certa forma, marcou essa celebração de um ano de retorno.
 
Me sentindo muito seguro em Jerusalém...
Que problema haveria em participar de um encontro como esse? Pra alguns, todos os problemas possíveis. Na minha volta de Ben-Gurion, como mencionei, tive a minha mochila desmanchada e fui encaminhado pra uma revista 'especial' com base unicamente no fato de ter dito, de forma totalmente ridícula e nervosa, que eu havia recebido 'umas lembranças' e que fizera contato com 'árabes'. Afinal, esses eram indícios mais do que seguros de que eu estaria 'inadvertidamente carregando material explosivo', como me explicou a simpática mocinha que falou comigo antes que eu fosse questionado por um agente de terno e gravata menor do que eu, mas duplamente mais chato.
 
Portão de Damasco em dia de protesto
 
 
Obviamente, com exceção de uns travesseirinhos de automóvel que o nosso motorista havia me dado de presente (e que eu queria preservar a todo custo), eu não carregava nada de anormal na minha mochila. De qualquer forma, o mais surpreendente dessa história é que, se eu tivesse dito que levava comigo alguma coisa dada por alguém de nome mais judaico, provavelmente teria passado incólume pela segurança do aeroporto. Não questiono a legitimidade do governo de Israel em adotar medidas mais severas pra garantir a segurança de suas fronteiras, mas isso, de forma alguma, justificaria a absurda presunção de que, por ter estado na Palestina ou haver falado com muçulmanos, poderia ser um terrorista em potencial.
 
E agora, cá vim eu, em um voo doméstico, sem que ninguém me perguntasse com quem eu falei, com quem eu andei, quem eu conheci, o que eu fiz, o que deixei de fazer, onde comprei as minhas roupas, por que eu gosto de abacate, etc. Enfim, embarquei, viajei e lanchei comida de avião sem que ninguém estivesse nem aí com o fato de haver visitado uma mesquita, falado com um rabino e discutido sobre a situação humanitária da Palestina com outras pessoas igualmente interessadas no assunto. 
 
Quer dizer, ao fim e ao cabo, depois de um ano da minha última experiência (até agora) com o aparato bélico de Israel, sigo pensando nos absurdos de um regime que justifica suas 'medidas preventivas' em posturas aleatórias e, o que é pior, de pura e simples discriminação. Ainda bem que há gente disposta a criticar e denunciar, com igual intensidade, todo e qualquer regime de segregação e de intolerância .

18 de jan de 2013

Colônias, E1, Bab Al-Shams e todo o resto

                Uma notícia chamou a minha atenção por estes dias: a fundação, por alguns palestinos, de um vilarejo chamado Bab al-Shams (em português, algo como Porta do Sol), na denominada Area E1, estratégica para a expansão das colônias em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia.

A notícia é importante por diversos motivos. Para mim, no entanto, o que mais releva destacar é o fato de que ninguém entendeu nada do que aconteceu. E, bom, isso é compreensível; afinal, se já é difícil saber como de fato funciona a ocupação israelense, imagina saber de coisas com nomes misteriosos, como Bab al-Shams e Area E1.
Vilarejo de Bab al-Shams (Fonte: Activestills.org)
Resumidamente, o que aconteceu foi o seguinte: em resposta à obtenção da Palestina, na ONU, do status de Estado Observador, o Primeiro Ministro israelense Netanyahu anunciou a retomada de projetos de colonização na chamada área “E1”, uma pequena faixa de terras que conecta Jerusalém e uma outra grande colônia, Maale Adumim (que eu visitei), ao Vale do Rio Jordão. Com isso, seria praticamente inviabilizada a constituição de um Estado Palestino com fronteiras contíguas, ou seja, sem fracionamentos, bantustões e coisas do tipo.  
Em antecipação a essa medida, ativistas palestinos, em 11/01/2013, se reuniram e, usando-se de técnicas normalmente aplicadas por colonos judeus, ergueram, da noite para o dia, diversas tendas na colina que serviria de centro para os projetos de expansão de Netanyahu. Quer dizer, a população nativa valeu-se de estratégias normalmente utilizadas pelas forças de ocupação para, ela mesma, “ocupar” territórios que são, por direito, seus. Nada poderia ser mais simbólico e, ao mesmo tempo, mais bizarro.
No entanto, o projeto teve vida curta. Numa noite fria, depois de alguns dias de batalha jurídica, forças militares invadiram Bab al-Shams e evacuaram seus moradores. Ficaram, ali, algumas tendas, e a sensação de que talvez tenhamos visto umas das medidas de resistência pacífica mais sensacionais dos últimos tempos.
A questão das colônias israelenses na Cisjordânia não é fácil. Desde a Guerra de 1967, Israel vem atraindo imigrantes para viver em colônias estabelecidas no interior do que seria parte do Estado Palestino, o que, além de ilegal conforme o Direito Internacional, implica um verdadeiro regime de segregação que muito lembra o de apartheid praticado na África do Sul. Muro de separação, checkpoints, estradas exclusivas para colonos, portas agrícolas,distribuição desigual de recursos hídricos, etc., tudo isso decorre desseprocesso lento, porém firme, de anexação de terras que originalmente não comporiam o Estado de Israel. A tal colônia na área “E1” seria, portanto, a cereja no topo de um bolo que só é gostoso para alguns.
 
Colônia de Ma'ale Adumim: riqueza e apoio estatal na Área E1 (Foto de Sean Smith, para o The Guardian)


Fazia muito tempo que não se tomava conhecimento de um desafio tão real. E, aliás, talvez por isso mesmo Israel tenha sido tão eficiente em abafar o caso, aumentando a confusão a respeito do ocorrido. Afinal, imaginem centenas de palestinos saindo de suas espremidas cidades localizadas em Áreas A e iniciando vilarejos em locais destinadas a operações militares, à expansão de colônias, à extração de minerais, etc. Seria algo incrível e, possivelmente, incontrolável.
Afinal, existir, tal como vi pintado na barreira de separação em Belém, é, de fato, uma das formas mais inteligentes de resistência que podem existir. Seguindo essa linha – de luta pacífica – talvez possa mesmo ser possível imaginar um Estado Palestino. Nada mais do que sonho, mas...