16 de fev de 2012

Wadi Hilweh

Há um grande projeto sendo levado a cabo em Jerusalém, chamado City of David. É um sítio arqueológico gigantesco, aberto à visitação turística, com alamedas floridas e tudo o mais; seu propósito, segundo consta no site da fundação que mantém esse espaço (http://www.cityofdavid.co.il), é recuperar o que teria sido a Jerusalém de 3000 anos atrás.

O problema é que as escavações ocorrem no bairro árabe de Silwan. E Silwan é, definitivamente, uma região estratégica. Localizado ao sul do Muro das Lamentações, nas proximidades do Monte das Oliveiras, o bairro possui uma população formada por centenas de habitantes – majoritariamente palestinos –, que têm suas residências constantemente ameaçadas por demolições por parte da prefeitura, que possui planos “especiais” para a região.

Claro que é importante recuperar a História, preservando o que for possível do passado; o que não é razoável, entretanto, é negligenciar o presente. É quase dogmático o entendimento de que, em se tratando de patrimônio histórico, faz-se necessário conciliar o que seria uma espécie de binômio “preservação – necessidade”, ou seja, trabalhar para conservar/revelar o passado ao mesmo tempo que se respeita a realidade e as necessidades atuais. Assim, se há famílias morando no que seria um potencial sítio arqueológico, o razoável seria  trabalhar para que elas fossem de alguma forma incluídas no projeto de conservação/recuperação, ou que se buscasse outras alternativas .

Mas ser razoável não é algo que falta nos territórios ocupados. Aliás, o que vemos por aqui é que muitas vezes sítios arqueológicos, ou mesmo reservas florestais, são estabelecidos nas áreas ocupadas com a finalidade de servir de ponta de lança de assentamentos ou para outros propósitos assemelhados. E nós, do time de Tulkarm, que estamos em Jerusalém para treinamento, tivemos o desprazer de ver como essa política ocorre de fato, no coração de Silwan.

Voltávamos da City of David, às 17h, por uma avenida chamada Wadi Hilweh, quando nos deparamos com uma grande área cheia de escombros, com pessoas sentadas em volta de uma fogueira, a maioria crianças. Sabíamos, já pela manhã, que havia risco de demolições na área; aí juntamos uma coisa à outra e, pronto... ali estávamos nós, inesperadamente, às voltas com uma das piores situações que já vivenciei. Funcionários da prefeitura haviam estado ali e, em questão de horas, demoliram um centro comunitário.

Sentamo-nos com as pessoas e descobrimos que o proprietário da área falava excelente espanhol, o que nos ajudou a estabelecer uma boa comunicação. Ele nos explicou, então, que no local havia uma quadra poliesportiva – as goleiras ainda estavam lá – e uma espécie de associação contra a violência dos assentamentos judaicos vizinhos. Comentou, ainda, sobre o longo procedimento burocrático que um palestino tem que passar para conseguir uma licença para edificar em Jerusalém, ressaltando que já estava ali fazia mais de sessenta anos, de modo que a demolição não fazia o menor sentido. Referiu, também, que dois dias atrás outro time do EAPPI estivera ali, justamente para conhecer o bairro e as atividades do centro que ele mantinha. Tudo posto abaixo.

 

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Aí perguntei o motivo para a destruição. E a resposta foi chocante: havia a necessidade de construir um estacionamento nas cercanias que servisse aos visitantes do tal sítio arqueológico e da Old City. Foi difícil manter a serenidade a partir daquele momento, mas nosso papel é justamente esse: acompanhar as pessoas, dando-lhes a atenção de que necessitam. Não podemos, portanto, tornar-nos um novo estorvo.

Assim, permanecemos ali por cerca de uma hora, conversando sobre o que havia ocorrido, sobre as demolições que estariam a caminho e cogitando as providências possíveis. Mas, àquela altura, pouco podíamos fazer; aliás, a verdade é que, exceto chamando outras organizações que entendem do emaranhado legal israelense, pouco poderíamos fazer para evitar o ocorrido. É impressionante, mas as coisas simplesmente “acontecem” nesse lugar, com uma arbitrariedade absurda; em se tratando de demolições é comum, por exemplo, haver a destruição da casa vizinha, e não aquela realmente “condenada” pela municipalidade. Aí, quando se dão conta do erro, o que fazem as autoridades locais? Vão lá e destroem o lugar “correto”.

O propósito disso tudo é evidente: expulsar gradualmente a população árabe de Jerusalém, confinando-a, apagando todo vestígio que sugira sua existência ou reforce sua identidade. Não foi ao acaso que o alvo da demolição tenha sido um centro comunitário. De qualquer maneira, apesar das dificuldades, acredito que a população de Silwan seguirá resistindo – até que, enfim, a última casa se converta em mais uma vaga de estacionamento.

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