11 de fev de 2012

Do lado de cá

Já estou em Tulkarm, uma pequena cidade palestina no norte da Cisjordânia. Para chegar aqui tive que tomar um ônibus em Jerusalém Oriental, ir para Rammallah, e de lá tomar uma van, numa viagem que durou cerca de 45 minutos. Chegando aqui, conheci a equipe que iremos suceder (mas substituir vai ser difícil, porque eles são excelentes!), jantamos, dormimos e fomos para a nossa primeira “missão”.

Bem, foi impactante.

Estivemos numa vila nas redondezas, chamada Kafr Qaddum, onde todas as semanas os moradores se manifestam contra a presença de diversos assentamentos judaicos na região (todos os assentamentos judaicos no interior da Palestina são ilegais) e contra as dificuldades de locomoção que isso impõe. Nesse processo, os palestinos se reúnem e saem caminhando por uma estrada que, apesar de ser trajeto óbvio para outra vila, é periodicamente bloqueada pelo exército israelense em razão da presença de um assentamento no local; e, como costuma acontecer, os soldados param estrategicamente em frente à última casa da vila. 

E sobre essa casa que eu gostaria de falar. Mais precisamente sobre a família que nela vive, que viemos a conhecer e que acompanheremos ao longo desses meses na Terra Santa (?).

A amendoeira que fica do lado da casa, completamente florida, parece dar um ar um pouco bucólico ao lugar. Mas o bucólico para por aí, porque em toda manifestação que ocorre eles têm o prazer de serem visitados pelos militares israelenses, que, valendo-se do caráter estratégico do lugar, normalmente sobem na sacada da residência para arremessar gás lacrimogênio e outras cositas contra os manifestantes.

Esse fato, aliás, já levou a família a simplesmente deixar de ocupar o segundo e terceiro pisos e passar a viver somente no primeiro pavimento. Portas e janelas, evidentemente insuficientes para impedir o ingresso de soldados, acabam também se revelando inúteis contra os efeitos do gás lacrimogênio, que invade a residência e a deixa com um ar pesado, que parece queimar os olhos. Com isso, toda a família, afora problemas de saúde, vê-se em face de problemas aparentemente bobos: os filhos não podem dormir na sacada durante os meses quentes e o mais velho deles dificilmente conseguirá uma esposa que aceite ir viver próxima aos seus parentes, como dita a tradição, em virtude dos riscos do local.  

A família toda parece bem traumatizada, mas, no curso da nossa conversa, já parecia bem mais tranquila com o fato de simplesmente estarmos ali, escutando o que tinham a dizer. A senhora, aliás, parecia completamente resignada: “já nos expulsaram da nossa terra, colocaram um muro, dividiram o nosso território. Que mais eles querem? Tudo é por segurança.” Sim, nesse lugar, a segurança parece justificar coisas espantosas; afinal, como absurdamente comentou um embaixador israelense durante nosso treinamento, em referência aos atentados suicidas (que já não são recorrentes), supostamente, para os árabes, a honra seria mais importante do que a vida, enquanto que para os israelenses a vida seria um bem acima de todos os outros, e por isso, deveria ser protegida a todo custo.

Mas, afinal, vale a pena proteger a vida de um à custa da vida de outro? Qual o preço e as consequências disso? É digno invadir a casa de uma família e matá-la aos poucos, senão fisicamente, pelo menos emocionalmente?

Por enquanto, vou refletindo. Mas o que importa, mesmo, é que ao final da nossa conversa minhas duas companheiras EAs pararam para admirar as flores da amendoeira. A dona da casa cortou três ramos – dois para minhas colegas e outro pro meu colega, que já tem cabelos brancos (eu provavelmente não recebi porque sou homem, jovem e desconhecido – ou porque simplesmente não foram com minha cara :P) - e – sem clichê – os entregou com um sorriso no rosto, já bem mais feliz.

Aí vão as fotos da estrada e das flores:

 

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Um comentário:

  1. Oi Érico:
    Fiquei tão contente ao saber da tua aventura pela Palestina. O teu pai me passou um email com o teu blog para eu poder te acompanhar. Tenho certeza que esta será uma experiência que você jamais esquecerá. Vou acompanhar a tua estada por ai, assim vou ficar sabendo mais do realmente se passa na vida dos palestinos. Aproveita bem a tua estada aí mas te cuida, já estou eu falando como uma mãe preocupada ... não repara. Beijos saudosos

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