6 de abr de 2012

Páscoa

Queria falar sobre a Semana Santa estando na Terra Santa. Afinal, esses dias talvez representem o que há de mais importante para os cristãos, que é a história da morte e ressurreição de Cristo. Além do mais, como luterano, tenho quase que um dever moral de escrever alguma coisa sobre essa período que começa com sofrimento e termina em júbilo.

No entanto, redijo essas linhas sob o efeito do que vi na última semana: gás lacrimogênio e pedras sendo arremessadas de parte a parte, fazendeiros sendo tratados como bandidos e condições desumanas em checkpoints. Além disso, quase que como uma cereja no bolo, descobri faz pouco que Israel decretou o fechamento da Cisjordânia até sábado de noite, de modo que só portadores de passaporte estrangeiro e residentes com “Permissão de Páscoa” poderão se dirigir a Jerusalém para as celebrações da morte e renascimento de Jesus Cristo durante esses dias. No caminho provavelmente encontrarão o terminal de Qalandyia ou outros bizarrices geradas pela presença militar israelense em território palestino.

 

DSC02380 Manifestante atingido por gás lacrimogênio na vila de Kafr Qaddum (Foto: Érico Loyola)

Com tudo isso acabo me perguntando se de fato há espaço para santos entre tantos checkpoints. A dor é tanta, as arbitrariedades são tantas, que é muito fácil simplesmente deixar-se levar pela situação e desistir. É super comum ouvirmos palestinos perguntando se podemos ajudá-los a se mudar para fora daqui, porque a situação é intolerável. Por sua vez, especificamente da parte dos cristãos palestinos, escutamos muito que eles se sentem abandonados por seus irmãos do lado de lá do muro.

No entanto, pode parecer absurdo, mas acho que a luta não é vã e que resistir à opressão, e vencê-la, conquistando uma paz justa, ainda é uma possibilidade. Para cada metro de arame farpado há uma ovelha alheia a tudo; para cada soldado há uma criança perguntando hooow areee yoooou; para cada bomba de gás lacrimogênio há dezenas de amendoeiras; para cada refugiado há uma xícara de chá sendo oferecida – atrás de cada momento de sofrimento há uma demonstração genuína de Fé, de Esperança e, acima de tudo, de Amor.

Aliás, Amor, é isso que precisamos, é isso que se deve buscar em todos os momentos. É isso que faz ressuscitar a esperança de milhares de pessoas, de ambos os lados, sejam elas cristãs, muçulmanas ou judias, pela causa da paz, que só é possível quando se tem Amor pelo que é humano. É como diz o sempre repetido I Coríntios 13:1: “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine”. Sem amor, sem esse escudo que sustenta qualquer qualquer luta, seria definitivamente impossível suportar a vida sob ocupação.

 

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Pomba no torreão da Herod’s Gate, em Jerusalém, esperando o fim do conflito. (Foto: Érico Loyola)

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