17 de abr de 2012

Jubara

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Bem-vindo a Jbarah, Jbara ou Jubara! (Foto: Érico Loyola)

A vila de Jubara, além de poder ser soletrada de diversas formas,  é um microcosmo dos males ocasionados pelo muro que separa Israel da Palestina. Por motivos que até hoje ninguém entende seus 300 habitantes, todos com identidad palestina, foram postos no lado israelense do muro, muito embora os mapas pré-1967 deixem mais do que claro que ela deveria pertencer ao território palestino. Em razão disso, os moradores se organizaram, contrataram um advogado e ganharam na Suprema Corte o direito de ver a linha do muro redesenhada, de forma que as terras pertencentes aos moradores de Jubara sejam incorporadas à Cisjordânia. Bem, essa decisão foi tomada em 2004. Só agora, no entanto, as máquinas começaram a trabalhar.

Do lugar onde estamos sentados, à sombra de uma árvore, eu, minha colega e Ahmad, um professor aposentado, conseguimos observar o serpentear da cerca de arame farpado (lá o muro é na verdade uma cerca de arame farpado – o que não significa que seja uma visão agradável). Pertinho dali ainda há um portão monitorado 24 horas pelo exército, cujo acesso somente é permitido a moradores locais; isso significa que se alguém quiser visitar Ahmad vindo da Palestina terá antes que conseguir uma permissão do governo israelense. Com o novo desenho esse exílio acabará, mas, como tudo o que acontece por essas bandas, o que vem pro bem da situação palestina resulta numa dor de cabeça tremenda.

 

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O Checkpoint que hoje separa Jubara do resto da Palestina – tiramos a foto longe para que os soldados não vissem :/ (Foto: Érico Loyola)

A começar pela própria demora no início das obras. Foram-se 8 anos até que ela finalmente começasse, isso desanima qualquer um que pense em agir “pacificamente” pra conseguir alguma mudança a partir das autoridades israelenses. Além disso, o próprio princípio da coisa está errado: por que alguém precisa entrar na Justiça pra ter reconhecido que as fronteiras palestinas vão mais além de onde hoje está a barreira que separa os dois países? Por que o governo de Israel não fez o favor de observar a decisão da Corte Internacional de Justiça sobre a ilegalidade da construção do muro em território palestino, que resultou, na prática, na indevida incorporação de território?

Além disso, a vitória na Justiça não foi total. Apesar de redesenhada, algumas terras pertencentes a palestinos ficarão do lado israelense da barreira, o que resultará na abertura de uma Agricultural Gate. Ou seja, várias pessoas terão que solicitar uma permissão por parte dos israelenses para acessar em datas específicas terras que lhes pertencem, com registro e tudo. Permissão semelhante deverá ser solicitada caso alguém deseje visitar algum parente que esteja morando em qualquer cidade israelense, como Taybe. Em outras palavras, em razão da nova “fronteira”, Jubara perderá a continuidade territorial que hoje desfruta com várias cidades, que hoje podem ser facilmente acessadas, ainda que “ilegalmente”, em razão do fato de simplesmente estar pra lá da cerca de arame farpado. Quer dizer, o exílio termina de um lado, mas começa do outro.

Finalmente, vem o risco das demolições. Conforme os Acordos de Oslo, parte da vila de Jubara está hoje no que é considerado Área B, e parte no que é considerado Área C, o que significa que muitas das casas que foram edificadas desde que a barreira que separa Israel da Palestina foi construída correm risco iminente de demolição. Quatro famílias, aliás, já receberam ordens para parar a construção de suas residências e uma escola primária que só existe em razão de doações da União Europeia pode eventualmente também ser posta abaixo, assim como diversas outras edificações em Área C.

Perto de todos esses contras, parece que não há motivo algum pra desejar estar do lado palestino. Burocracia e incerteza parece ser tudo que espera Ahmad e todos os habitantes de Jubara. No entanto, o próprio Ahmad é um exemplo de que a causa de um Estado palestino é mais forte do que problemas individuais: com o novo desenho do muro, ele perderá o fácil acesso que hoje tem para visitar diversos de seus parentes que vivem em Taybe, e um de seus filhos provavelmente não mais poderá seguir trabalhando na mesma cidade. Ele tem certeza de que a luta exige sacrifícios, mas que esses valerão a pena; o que realmente importa, segundo Ahmad, é que “se recupere as terras palestinas, com os israelenses vivendo do lado deles, e nós vivendo no nosso”.

 

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Nas terras de Ahmad (Foto: Érico Loyola)

Realmente, todos esperamos que isso seja possível um dia.

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