18 de mar de 2012

Haifa

Haifa fica no norte de Israel, no entorno de um dos portos mais movimentados da região do Levante. Ela espalha-se, vibrante e imponente, por uma baía belíssima até encontrar as primeiras escarpas dos montes esverdeados que abrigam Nazaré. Nesse ambiente tão amistoso é que, conforme propagandeado por  Israel, teria surgido um exemplo de boa convivência entre judeus, muçulmanos, cristãos e outros credos religiosos, como os Baha’i.

E, de fato, talvez Haifa tenha sido o lugar mais “multifacetado” que já visitei até agora dentro do Estado de Israel. Há, realmente, judeus, muçulmanos e cristãos; há sinagogas, mesquitas e igrejas. Há alemães, russos, árabes, filipinos; há ortodoxos e há os "secularizados”. Mas, infelizmente, basta um olhar mais atento para ver que essa diversidade tem muito de propaganda e pouco de veracidade.

Haifa era um dos portos mais importantes do Império Otomano e tinha uma população predominante árabe e muçulmana. No entanto, com as ondas imigratórias da primeira metade do século XX, esse cenário inverteu-se, tornando-se os judeus o grupo religioso predominante. Ato contínuo, com a Guerra de Independência, foram os muçulmanos expulsos da cidade, muito deles vindo parar aqui, em Tulkarm, onde hoje cerca de 30.000 pessoas se amontoam em dois campos de refugiados.

 

DSC00917 Campanha do governo palestino pela questão dos refugiados

 

Wadi Nisnas, o bairro muçulmano par excellence, é o melhor exemplo desse êxodo: situado numa região super valorizada, entre o porto e as residências do bairro judaico do Hadar, hoje encontra-se descaracterizado e seus edifícios vem sendo gradativamente substituídos por prédios comerciais gigantescos. Aliás, a coisa é tão surreal que uma antiga mesquita hoje abriga uma casa noturna chamada Sofia Club, numa provável homenagem à Sofia búlgara. Além disso, umas tantas outras construções antiquíssimas foram derrubadas pra dar lugar a um estacionamento como desses que a gente encontra em qualquer lugar do mundo.

 

DSC01356

Sei que a cultura não é estática. Sei que uma discussão sobre o que diferencia um prédio velho de um edifício digno de ser preservado para posteridade pode levar séculos e dúzias de xícaras de chá. O que importa aqui, no entanto, são as pessoas: é meio esquisito falar em convivência multicultural quando milhares de indivíduos foram expulsos de suas casas e um dos bairros mais afetados pela especulação imobiliária é justamente aquele que guarda boa parte da herança muçulmana. E, claro, tudo se torna pior quando não se nota muito interesse em preservar essa herança.

Voltarei pra Haifa dentro de alguns dias e certamente terei os mesmos sentimentos contraditórios, de alegria e tristeza. É definitivamente estranho poder sair quando quiser e ter a possibilidade de novamente admirar os jardins Baha’i e os montes que circundam a cidade, enquanto milhares de outras pessoas, também vivendo a 70 km dali, talvez jamais conseguirão fazê-lo.

2 comentários:

  1. Bah Loyola, que contraste.
    Abraço, e boa sorte por aí.

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  2. salve, diogo! o contraste é absurdo... infelizmente eu só posso usar palavras e fotos pra tentar explicar o que é isso aqui :\

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