7 de mar de 2012

Equilíbrio

Sentados na grama, admirando a paisagem e esperando a abertura de umas das dezenas de portas agrícolas que dificultam o acesso dos palestinos às suas terras. Diante de nós, dos altos da vila de Fara’un, ao sul de Tulkarm, tem-se uma vista fantástica de Israel. Vê-se o mar, as planícies litorâneas, os campos cultivados, dezenas de cidadezinhas, Tel Aviv e… o famoso checkpoint de At Tayba, onde todos os dias milhares de trabalhadores são submetidos a condições desumanas. E é assim por aqui, pra cada burrico narigudo ou amendoeira há sempre um grande obstáculo. Sensações boas vêm sempre acompanhadas de um medo inexplicável de que algo muito ruim pode acontecer no instante seguinte.

 

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(Um dos meus burricos favoritos)

 

E, bem, como dizia, lá estávamos nós, sentados na grama, esperando a porta agrícola abrir. Conosco, o sol, as crianças e um fazendeiro que cantarolava músicas indianas. Pergunto ao fazendeiro se ele acha se está tudo bem.

“Sim, está tudo bem, nada de problemas em Fara’un. Os soldados são bons, nos tratam bem”.

 

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Os guris querem saber se eu gosto do “Barsshaaaa” (Barça). Quando vou explicar pra eles o que é o Grêmio Foot-ball Portoalegrense, aparecem os soldados israelenses para abrir a tal porta. Com eles, seus coletes, uniformes, capacetes e M16.

Paramos por alguns instantes para ver quantas pessoas vão passar. Contudo, notamos um certo desconforto entre as crianças: elas ficam alertas, acompanhando a movimentação dos militares (os meninos, principalmente, ficam mais agitados, enquanto as meninas se encolhem). Os israelenses, por sua vez, parecem meio surpresos com a presença de tanta gente, mas não fazem qualquer comentário.

Naquele momento entendi o que o nosso amigo de fato queria dizer.

Estabeleceu-se, ali, uma espécie de equilíbrio maldoso, em que “tudo bem” significa simplesmente “seguimos com nossas vidas”. Afinal, não há propriamente paz, pois várias casas da vila foram destruídas há alguns anos atrás e boa parte das restantes continua condenada pelo Exército Israelense pelo fato de simplesmente estarem perto demais do muro que separa os dois países. Além disso, a presença de aviões de monitoramento sobre a região parece sempre lembrar que a ocupação continua e que o som dos burricos jamais prevalecerá em Fara’un.

Subitamente me desconcentro. Um medo atroz me sobe pela espinha e pergunto ao nosso amigo se é seguro ficar com as crianças ali, tão perto dos soldados. Ele diz que não poderíamos ficar tão perto da porta, mas que nada vai acontecer. Seguimos a contagem e nossa conversa com as crianças, até o momento da porta ser fechada. Um dos meninos se levanta, e, meio emburrado, olhando em direção aos soldados, diz alguma coisa.

“Ele diz que gostaria de ir lá”, traduz o fazendeiro.

Os soldados seguem à frente para fechar a porta. Ninguém foi deixado pra lá do muro, todos puderam sair sem problemas. Estamos nos levantando quando, de repente, o menino emburrado resolve pegar uma pedra do chão. Parece que em frações de segundos uma catástrofe se abaterá, que todo aquele equilíbrio macabro pode ser quebrado por uma pedra arremessada na hora errada, no momento errado, pela pessoa errada. Tiros, reforços e outras coisas podem ser a resposta do outro lado e, a partir dali, sabe lá Deus o que mais.

O fazendeiro que nos acompanha habilmente se antecipa e abraça a criança, dizendo algumas palavras que soam bizarramente simpáticas. A criança larga a pedra e começa a rir, respondendo alguma coisa engraçada. Olho para trás, para ver a reação dos soldados, mas nada indica que eles tenham percebido o que estava prestes a acontecer. Fara’un pode respirar aliviada, pois tudo seguirá “bem”.

 

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