6 de jan de 2012

Espaços

Pra onde vou? Já ouvi de tudo: que vou pra Mesopotâmia, pra Patagônia, pra Pastelina e, o mais original, pra Macedônia.

Não tiro o benefício da dúvida de ninguém. Às vezes nem eu tenho certeza do meu destino. Sei, contudo, que vou pra um pedacinho de terra chamado Levante, Oriente Próximo, ou ainda Oriente Médio, disputado há milhares de anos por uma infindade de povos e interesses diferentes. E, no meio disso tudo, há Israel, e há Palestina.

Israel, segundo dados do CIA World Factbook – já computando Gaza e Cisjordânia -, tem 20.700 km², área equivalente ao nosso Estado de Sergipe (que tem 22.000 km²); e, dentro desse espacinho, está a Palestina, que teria direito a uma base territorial de mais ou menos 6.000 km².

Pra se ter uma ideia, 6.000 km² é um pouco mais da metade do tamanho da Região Metropolitana de Porto Alegre. A diferença entre Palestina e Região Metropolitana, contudo, é que, se daqui podemos ir do Lami às beiradas da Serra Gaúcha num bate-volta em, digamos, três horas, em terras palestinas é praticamente impossível sair de Jerusalém, curtir o Mar Morto e voltar no mesmo dia. Divisões, assentamentos judaicos, postos militares, muros de contenção e outros obstáculos dificultam, e muito, a locomoção dos indivíduos e controverte a noção que nós, brasileiros, temos de espaço e de liberdade.

Exemplificando. Imagine-se você, que mora, digamos, na Tristeza, tendo que passar todos os dias por um posto de imigração pra trabalhar no Moinhos de Vento, ou mesmo tomar chimarrão no Parque da Redenção. É mais ou menos isso que os palestinos de Belém passam todas as madrugadas para trabalhar em Jerusalém, ilegalmente anexada por Israel, cruzando o Checkpoint 300, em condições absolutamente desumas. Aliás, aí abaixo coloco um vídeo (que nem é dos piores) sobre as condições do tal lugar, que mais parece uma gaiola humana:

 

Assim como 300, há outros checkpoints. O pior, segundo relatos do pessoal que teve a oportunidade de trabalhar na área, é Qalandiya, que controla o acesso de palestinos provenientes de Ramallah a mesma Jerusalém. Para mais informações sobre esse checkpoint, indico o blog de uma former EA, que teve a oportunidade de fotografar o local. Não sei qual vai ser a sensação de vocês, mas a crueza das fotos, associada à qualidade do texto, torna o choro quase inevitável: http://westofthebank.blogspot.com/2011_11_01_archive.html

Bem, ao que tudo indica, a intenção do governo de Israel, ao instalar essas tais barreiras, foi prover a população israelense com uma proteção efetiva contra os atentados terroristas que já vitimaram centenas de pessoas. Realmente, violências dessa espécie são injustificáveis e, a meu ver, autorizam a tomada de medidas protetivas (afinal, nada justifica a morte de quem quer que seja); agora, condenar toda uma população pelos atos inconsequentes de alguns, que só serviram para colocar em risco um longuíssimo processo de paz, é algo completamente desproporcional e contrário ao Direito Internacional.

E assim segue a vida no Levante, com horizontes encurtados pela desconfiança e pelo ódio…

Quanto a mim, tenho a impressão de que isso será o mais chocante de tudo. Adoro ter a minha liberdade de locomoção; adoro saber que posso pegar um ônibus ou o carro e ir a qualquer lugar, apesar das estradas, dos engarrafamentos e dos pedágios absurdos. Gosto de saber pra onde vou, que posso sair de algum lugar, ir para outro, e voltar quando quiser, sem ter que encontrar um soldado que sabe lá o que poderá fazer caso ache que as meias que levo na mochila não são apropriadas para entrar em determinado lugar.

Provavelmente retomarei esse assunto outro dia. Isso se algum checkpoint não me impedir…

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