11 de jan de 2012

Continuidades

Quando passaram a existir Israel e Palestina?

Essa vai ser uma das dúvidas que certamente recairá sobre mim ao longo do percurso. Afinal, por alguma causa insondável do destino, quis Deus que numa mesma região se fizessem presentes três das principais correntes monoteístas. E, com esse viés religioso, ergueram-se inúmeras correntes políticas, cada uma tentando conquistar para si a hegemonia sobre esse espaço sagrado.

Embora possamos traçar a um passado longínquo as reivindicações de soberania sobre a Terra Santa, tais pleitos estão associados a um aspecto muito mais cultural, atrelado aos processos de construção de identidades nacionais, do que propriamente a uma verdade suprema e inquestionável, que atribuiria a um povo, em detrimento dos outros, a posse sobre aquela área. Em outras palavras: por mais que remetam à Antiguidade ou à Idade Média o seu “título” sobre Palestina/Israel e, de forma mais candente, sobre Jerusalém, a verdade é que o judeu, o cristão ou o muçulmano que estão atualmente naquela região pouco ou nada tem a ver com aqueles que lá viviam nos tempos de Salomão, das Cruzadas ou de Saladino.

Realmente, o movimento internacional pela consolidação de um Estado judeu, embora acalentado por muito tempo, só foi ganhar ímpeto no final do século XIX e início do Século XX, notadamente a partir da 1ª Guerra Mundial, com o denominado Sionismo. Nesse período, contudo, não havia certeza do lugar em que ele poderia ser estabelecido, embora, é claro, houvesse uma preferência explícita pela sua constituição na terra do qual provenientes os antigos hebreus. Note-se, ainda, que também havia judeus explicitamente contrários ao estabelecimento de um Estado nacional, seja porque achavam que tal deveria ocorrer por ação da providência divina ou porque isso ia de encontro às diretrizes socialistas da época, que denunciavam o nacionalismo como uma ferramenta para a desunião do proletariado.

Da mesma forma, a ideia de uma nacionalidade palestina também é recente, tendo sua origem identificada em revoltas contra o Império Turco-Otomano ainda no século XIX. Esse movimento, tal como o sionismo, ganhou força no pós-1ª Guerra, com o processo de emancipação do mundo árabe. Ou seja, naquela pequena unidade política chamada Palestina, dominada pelos britânicos depois da queda do governo de Istambul (respeitosamente chamado de o Homem Doente da Europa), também foi se forjando uma consciência identitária própria, que, tal como ocorria com seus pares judeus, buscava para si elementos que a distinguisse de seus vizinhos jordanianos, sírios, egípcios, etc.

Aliás, para melhor compreensão da situação, aí vai um mapa que, a grosso modo, mostra como ficou a configuração do Oriente Médio pós-1ª Guerra:

 

mandate (Fonte: http://speedchange.blogspot.com/2011/09/september-11-2001-knowing-history.html)            

 

Bom, o que quero dizer com tudo isso: que é muito difícil falar em continuidades num espaço de mobilidade tão grande quanto o Oriente Médio e, mais especificamente, na região em que situados Israel e Palestina. O processo de consolidação dos Estados Nacionais naquela região é recente, e qualquer tentativa de associar tal fato a um passado bíblico, ou a um desejo incompreensível de “riscar os infiéis do mapa”, respeitada as posições em contrário, é algo no mínimo complicado. Uma coisa é a herança cultural e religiosa, que ajuda a definir a identidade de um povo, a “construir a nação”, outra é a mobilização política organizada para o estabelecimento de uma unidade política soberana, que depende de inúmeros outros fatores.

Assim, não podemos entender que só um pode ter o título exclusivo sobre a região da Palestina: a despeito de eventuais divergências culturais e religiosas, politicamente foi acordado o estabelecimento de dois Estados na região, e tal fato deve ser aceito como pronto e acabado. No entanto, ainda assim falta um país que sirva de casa aos palestinos; quando que esse surgirá é um mistério que provavelmente não teremos resposta por um bom tempo.

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