27 de ago de 2012

Israel e Palestina em quadrinhos

Estamos quase em setembro, mas parece que eu ainda não voltei de viagem. Afinal, ao retornar, me comprometi a divulgar a minha experiência nos territórios ocupados, e, para isso, preciso ainda manter-me atualizado sobre o que acontece em Israel e na Palestina.

Assim é que, para algumas apresentações que encaminhamos nos últimos meses (obrigado IECLB, FAPA e UNISINOS :D), com o intuito de expor um pouco das violações aos Direitos Humanos que vimos por lá, acabei me deparando com uma obra em quadrinhos chamada Jerusalem: Chronicles from the Holy City, do cartunista canadense Guy Delisle (Editora Farrar Straus & Giro; preço médio: R$ 70,00).  

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Capa do livro – agora vocês sabem como ele se parece (Copyright 2012 by Guy Delisle)

É um livro grande, de 300 e tantas páginas, que cobre o período em que Guy viveu em Jerusalém Oriental, em companhia de sua esposa, funcionária da ONG Médicos sem Fronteiras, e de seus dois filhos pequenos. É uma leitura de fácil entendimento, mas nem por isso boba, sobre o dia-a-dia do conflito, visto pelos olhos de alguém que esteve em Israel entre os anos de 2008 e 2009 e teve a oportunidade inclusive de acompanhar a chamada operação Cast Lead.

Acabei me identificando muito com o livro. A dificuldade inicial com a língua, a adaptação ao universo de homens de roupa escura e mulheres vestidas dos pés à cabeça, o choque com o muro de Belém e a divisão de Hebron, o olhar admirado sobre Tel Aviv, os golfinhos de Eilat, a beleza (e tristezas) da fé religiosa, a neurose com a segurança, tudo que é capaz de marcar qualquer um que passa uma temporada por lá, aparece no traço e nos diálogos dos personagens (reais) da obra do canadense.
 
Não se trata de um livro “engajado”, no sentido de que ele eventualmente se posicione em favor de algum dos lados. Pelo contrário, o grande mérito de Delisle é justamente conseguir captar as nuances do conflito, desfazendo dicotomias e ilustrando o que há de mais positivo, negativo e pitoresco naquilo que observa, sem, contudo, fugir da sua (quase) obrigação de retratar a ocupação com ela realmente é: burocrática, desproporcional e desumanizadora.
 
Seus traços são simples, mas sensíveis. Embora talvez melhor aproveitados por aqueles que já tiveram a oportunidade de viver em Israel e nos Territórios Ocupados, principalmente em razão das lembranças que ele desperta - quatro ou cinco quadrinhos mostram o trabalho do Conselho Mundial de Igrejas junto a um dos checkpoints de Ramallah! –, é um livro que indico também para aqueles que têm interesse em se inteirar sobre o assunto, a partir do ponto de vista de um estrangeiro que não tinha qualquer vínculo prévio com as pessoas e com os problemas daquela parte do globo – mas que, como todo mundo que passa por uma experiência dessas, acabou se conectando a tudo que viu.

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