8 de jul de 2012

Sebastiya

Devia um post sobre um dos meus lugares favoritos na Palestina. E aproveito também para falar sobre as dificuldades de se preservar o patrimônio histórico-cultural em meio à ocupação militar israelense.

 

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Tentando derrubar o que restou de Sebastiya (Foto: María Isabel Fiallo Flor)

Sebastiya é um vilarejo situado ao norte da Cisjordânia, nas proximidades de Nablus, que guarda um dos mais completos conjuntos arqueológicos da região do Levante. Ali estão localizados os restos de uma antiga cidade romana chamada Sebaste, além de edifícios do tempo dos bizantinos e outras culturas. Afora isso, ali estaria localizada a tumba de São João Batista, o responsável por nada mais, nada menos, batizar Jesus Cristo. Ponto de peregrinação importante, principalmente para cristãos ortodoxos, lá há inclusive uma uma catedral imensa, erguida pelos cruzados, catedral essa que, depois da conquista árabe, foi convertida em mesquita.

Sebastiya certamente poderia competir em importância com famosos sítios arqueológicos israelenses abertos à visitação, como Caesarea. Digo poderia porque, bem, Sebastiya está na Palestina, não em Israel, e isso significa uma série de problemas.

A começar que é praticamente impossível saber qualquer coisa dela por vias normais. Não há pacotes de turismo, não tem programa de TV, nunca teve filmagem hollywodiana (como Petra, na Jordânia) e os recursos para propagandeá-la são tão escassos quanto água no deserto. Eu só vim a saber de Sebastiya porque, como quase-historiador, tenho faro pra identificar nomes de cidades com potencial pra esconderem coisas divertidas. E, de fato, Sebastiya esconde muita coisa “velha” que só gente como eu vê alguma graça.

Além disso, Sebastiya sofre com a precariedade. A vila, conforme os Acordos de Oslo, está parte situada no que se considera Área B, onde a ANP só tem controle sobre os assuntos civis, e em parte no que se considera Área C, onde os assuntos civis e militares ficam “aos cuidados” das forças de ocupação. Isso significa que a Autoridade Palestina não tem total controle nem sequer sobre a totalidade do sítio arqueológico. Em outras palavras, embora em território palestino, uma seção inteira das ruínas na verdade depende da boa vontade de Israel pra ser preservada. E vocês devem imaginar o quanto isso é complicado, especialmente quando logo ali do lado há uma colônia ilegalmente instalada em propriedade de palestinos. Aliás, cooperação nesse caso é algo que não parece passar pela cabeça de ninguém, ainda mais depois que Israel ocupou o sítio arqueológico de Herodium, em plena Cisjordânia, a poucos quilômetros de Belém, fazendo dele um dos seus hot spots turísticos…

Sebastiya infelizmente não é a exceção nos territórios ocupados. Muitos locais com enorme potencial turístico sofrem com falta de conservação e com o desleixo tanto da Autoridade Palestina quanto das forças de ocupação israelense.  A esperança é que as coisas mudem em razão do ingresso da Palestina na UNESCO. A primeira consequência positiva desse ingresso - que sofreu a oposição dos EUA e de Israel – foi a inserção da Igreja da Natividade, em Belém, no rol de bens considerados como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. O valor simbólico da medida é evidente, porque assegura que a Palestina, assim como qualquer outro Estado no mundo, faz jus a ter os seus marcos histórico-culturais reconhecidos mundialmente. Sim, pois é, não é só Israel que tem direito a ter a sua história preservada.

Talvez chegue um dia em que Sebastiya usufrua do mesmo benefício concedido à Igreja da Natividade. E, inshallah, não haverá mais ocupação…

 

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Mesquita + Catedral Templária + Lua (Foto: Érico Loyola)

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