15 de fev de 2016

Turista local

Tenho problemas com lugares "novos". Restaurantes, bares, museus, feiras, enfim, espaços que representem alguma novidade me deixam ansioso. Sinto-me perdido, sem bolsos suficientes, sem direções para olhar. 

O mais estranho é que isso costuma acontecer em Porto Alegre, o lugar em que vivo há vinte e sete anos. E o que é pior, isso acontece até na fila de buffet.Tenho medo de revirar a salada e de pensarem que estou em busca da rúcula de ouro. Fico receoso de que comece a tremer sob olhares desconfiados e deixe o pegador cair com a massa bolonhesa. Tenho vergonha de ficar na fila do bar, sozinho, esperando a minha vez e, do nada, ser pulado na frente por um hipster desalmado.

No Rio, a minha outra terra natal, isso acontece muito menos. Lá, consigo ir sozinho em um boteco e pedir misto-quente com guaraná. Em Belo Horizonte, usei chapéu caipira enquanto tomava cerveja e comia fígado com quiabo. Em Londres, joguei um quiz etílico com franceses desconhecidos e ganhei meio litro de cerveja quente.


Quando, na vida, eu ia fotografar um brigadiano/soldado em Porto Alegre?

Imagino que, enquanto local, deveria me sentir bem comigo mesmo em espaços e com pessoas que reconheço como porto-alegrenses. Experimentamos paisagens e sensações semelhantes, todos os dias. Podemos ter conversas em comum, falar do Grêmio, do Inter e das obras intermináveis, e não se sentir menos, mais ou diferente um do outro.

Ainda assim, apesar de todas essas semelhanças, não raras vezes me vejo fora de lugar em Porto Alegre. Ao mesmo tempo, fora daqui, me encontro, mas também não me sinto em casa.

A impressão que eu tenho é que a curiosidade e o ser, de fato, estranho em um lugar estranho, é o que anima a fazer descobertas. Além disso, atiça a sociabilidade, a exposição a experiências incomuns. Não ser belo-horizontino me permitiu usar chapéu de palha. Não ser inglês me animou a fazer amigos franceses e andar quilômetros para comer purê de ervilhas. Não ser muito carioca sempre me dá o direito de me fazer totalmente carioca quando no Rio, mesmo quando chamo sinal de sinaleira. 

No entanto, penso também que é muito fácil fazer "macaquices" fora do nosso lugar. Usar chapéu de palha em Belo Horizonte não necessariamente me torna mais mineiro, assim como purê de ervilhas não precisa ser considerado bom. Chamar de sinal o que também é uma sinaleira não vai mudar a vida de ninguém. 


Sendo um turista local.

Ser reconhecido, no cotidiano, como alguém estranho, pode ser bem penoso. Disso decorre a preocupação com o gestual, com a forma com que nos expressamos, com os lugares aonde vamos. O problema é quando isso leva a uma espécie de acomodação e ao medo de ser turista na própria cidade. Por isso a ansiedade com lugares novos, dentro da própria cidade. Desvendar os mistérios do lugar em que se vive pode ser até mais desafiador, mas não há razão para não se abrir a novos horizontes, mesmo quando as ruas já são bem conhecidas.

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