8 de fev de 2016

Lá e perto daqui


Descobri uma foto que eu havia tirado em 2009. Foi por acaso, rememorando viagens. Em primeiro plano o que se vê são os restos de uma cerca feita de folhas de palmeira, e, ao fundo, em perspectiva, uma imensidão de areia. E lá, bem, bem distante, entre a cor ocre da areia e o céu palmilhado por nuvens, dois pontinhos caminhando rumo ao nada. 

A resolução da imagem não é das melhores, mas, acreditem, os pontinhos estão lá. Um pouco à direita da cerca de madeira, ao fundo. É possível vê-los aqui também.

Pessoas quase invisíveis, longe de tudo, no meio do nada.

Salto para 2013. Outra foto minha. Dessa vez, o que se destaca é o nublado e a menina andando no canto. Inclinada, com todo aquele vento, ela segue adiante, apesar da resistência que o ar lhe opõe. Gosto de pensar, também, que a foto apresenta uma “perspectiva sem perspectiva”: isto é, que o fato de não se saber o que vem depois da duna em que a menina se encontra também representa a distância, assim como aquelas duas pessoas caminhando lonjuras. 

Pessoa mais perto, mas também no meio do nada, longe de tudo.

É fácil dizer o que me chamou a atenção naqueles momentos. A imensidão, as distâncias, o nada, tudo tão, tão longe, ou tão, tão, perto, a diversão com a natureza e seus obstáculos. Muito romântico, muito bucólico, muito digno de contemplação. Muito digno de se sentar e pensar “na natureza selvagem” e nos gnomos.

Achei curioso constatar que a primeira das fotos havia sido tirada nos Lençóis Maranhenses, e a segunda aqui perto de Porto Alegre, na região da Lagoa do Bacopari. Esses lugares estão distantes milhares de quilômetros um do outro, e também tem anos-luz de diferença em termos de turismo organizado. No entanto, com um pouco de má-fé, um lugar poderia ser tomado pelo outro. Seria como tirar uma foto em Sydney e dizer que era Búzios, ou fazer uma selfie em Charqueadas e falar que foi em São Paulo.

Quer dizer, no fim das contas, o lugar não importa tanto assim. Apesar da geografia, acho que inconscientemente acabei alcançando uma espécie de “tema”, aproximando visões que de maneira alguma poderiam ser intercambiadas. Para esse “tema”, distância e tempo são aparentemente irrelevantes. O que importa são as sensações que aqueles lugares puderam despertar. A imagem dos Lençóis talvez pudesse ser ilustrada com uma legenda dizendo que aquilo era Bacopari que não ia fazer a menor diferença.

Afinal, na fotografia o que vale é a transmissão. Sim, o que está na imagem é a realidade, mas uma realidade interpretada e/ou representada daquilo que temos à frente de nós. Os ângulos, os movimentos, a perspectiva, está tudo lá para causar uma determinada impressão e revelar um pouco da minha visão de mundo, e também do mundo dos outros. E isso pode ser levado para qualquer lugar. No Maranhão ou no Rio Grande do Sul, o que aparece é um pouco de mim e também das estratégias que me ensinaram em termos de fotografia.  Aqui ou lá, e ainda que separadas por cinco anos e câmeras bem diferentes, posso transmitir as mesmas “preocupações”. Sinal, talvez, de que o GPS não se confunde com a mensagem.

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