2 de fev de 2016

Amor em Tempos de Árvores Caídas

Escrevo inspirado pelo texto do Professor Francisco Marshall, disponível no Jornal Zero Hora de domingo, sobre a nossa "cidade transtornada". E, também, pela minha vivência ao longo desses dias de tormenta. Espero que a narrativa e as observações a seguir ajudem a desanuviar o clima pesado que se (me) abateu sobre todos (sobre mim). 

Trabalho próximo a uma dessas praças que todos conhecem, mas poucos sabem o nome. “Isabel, a Católica”, provavelmente não é a área verde mais conhecida de Porto Alegre, mas ainda pode presentear alguns nesta última segunda-feira, véspera de Nossa Senhora de Iemanjá, com uma cena pouco provável.

A cidade recém começava a se recuperar dos estragos do final de semana. Luz, internet, telefone, enfim, tudo, absolutamente tudo, indisponível. Além disso, era palpável o nervosismo de todos quanto à urgência de voltar à normalidade. Hospitais e vias bloqueadas, por sua vez, disputavam, com os refugiados do Instagram e do Facebook, a preferência de atendimento por parte dos órgãos da administração municipal, que se reviravam para atender a milhares de ocorrências.

Além disso, havia as árvores. Por toda a parte. Caídas, destroçadas. Parcão, Redenção, Marinha do Brasil, e também “Isabel, a Católica”, tiveram dezenas das suas arrancadas pelas raízes. Na segunda, ainda estavam elas lá espalhadas pelo chão, como soldados tombados em batalha, dividindo o espaço disponível com banquinhos, tabuleiros de xadrez e escorregadores.

Foi nesse cenário entristecido, junto a um parquinho e a uma dessas árvores gigantes tombadas, que descansava um casal relativamente jovem. Era quase uma da tarde, e eles pareciam não se importar com as paineiras, ipês e demais espécies vegetais que haviam perdido troncos, membros e folhas. Na “Isabel, a Católica”, riam, abraçavam-se, beijavam-se. Vez ou outra o rapaz olhava em volta, sem esconder o sorriso, só para se certificar se alguém os observava com olhar reprovador.

Casal feliz. Isabel, a Católica, também feliz.

Definitivamente, não era o meu caso. Inclusive, parei para tirar uma foto, discretamente. Aquela imagem, inclusive, deu-me esperança de dias melhores. Esperança de que as árvores caídas serão recolhidas, de que as que estão de pé seguirão de pé, de que ainda haverá amor, apesar de tudo. Em uma cidade tão abatida, com visível degradação do espaço público, essas demonstrações de afeto revelam resistência e confiança no futuro, e de que talvez por aí encontraremos o "caminho da felicidade" de que nos falava Francisco Marshall em sua coluna.

Mesmo em tempos catastróficos, podemos confiar em parquinhos e em casais apaixonados como símbolos de resistência. Podemos confiar, enfim, que tudo voltará à normalidade, e de que é viável a construção de espaços públicos que favoreçam a urbanidade e um urbanismo mais humano. Nada mais energizante do que uma criança brincando no passeio do macaco, ou do que ver pessoas satisfeitas andando pelas praças e parques. A vida segue, com ou sem árvores caídas.


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